
“Notamos dificuldade no sistema. Mulheres entrando para o parto sem acompanhantes, apesar da lei do acompanhante, e que precisavam de um preparo ainda maior, tanto para ela quanto para os parceiros, mas não tiveram. Com certeza a violência obstétrica aumentou. Também tivemos muitas queixas de adiamento das consultas ao longo da gestação. Foi muito complicado para quem dependia do SUS porque a maioria das maternidades virou referência para Covid-19 e o pré-natal, que era tão importante, virou algo secundário. Nos três últimos meses, que era para a consulta ser semanal, as mulheres estão tendo consultas mensais. E o último trimestre é quando mais temos intercorrências na gestação.
As mulheres deixaram de ir ao médico pela dificuldade de conseguir consulta ou pela exposição ao vírus, e muitas vezes só retornavam para fazer exames. Algumas gestantes que não queriam ir à maternidade por medo de pegarem Covid-19 começaram a nos procurar para fazer o acompanhamento e o parto em casa, porque sabiam que a gente trabalhava com isso.
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Algumas gestantes que não queriam ir à maternidade por medo de pegarem Covid-19
A empresa cresceu na pandemia. Se antes a gente atendia três pacientes por mês, em janeiro, no pico da pandemia aqui em Manaus, o número de partos em casa triplicou, assim como os demais atendimentos em domicílio, foi uma demanda absurda. Pessoas que nunca imaginaram ter um parto em casa fizeram essa escolha por conta da pandemia e não se arrependeram.
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Tivemos que nos adaptar ao mundo virtual. Atendemos pessoas até de outros estados, como Alagoas e Pernambuco, com consultorias virtuais. E essa não foi a única adaptação, nós tivemos que nos adequar aos protocolos de segurança para evitar contaminação, uma vez que temos contato com várias gestantes, que estão isoladas em suas casas, e não podemos nem nos contaminar nem contaminá-las. Adquirimos todos os equipamentos de proteção individual, como máscaras, luvas, capote e face shield [escudo facial], além de higienizar tudo, que não era uma realidade do nosso atendimento.
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Pessoas que nunca imaginaram ter um parto em casa fizeram essa escolha por conta da pandemia e não se arrependeram.
A procura pelo atendimento pré-hospitalar domiciliar também aumentou bastante, que é aquele voltado para as gestantes de risco que não podem ter o parto em casa, mas acabam optando por esse serviço nos momentos que antecedem o parto para tentar passar o menor tempo possível dentro do hospital. Quem pode, evita ao máximo ficar na maternidade, mesmo já tendo passado o pico da pandemia em Manaus.”
Maria Carolina Machado, enfermeira obstétrica que deixou a rede pública para trabalhar com atendimento domiciliar, em depoimento à repórter Monica Prestes